Imunização em queda no Brasil é um alerta de possíveis surtos de doenças do passado

Recentemente, os estados do Norte vem enfrentando um surto de sarampo, com duas mortes confirmadas, enquanto a região Sudeste e Nordeste se afligem com a possível volta da poliomielite. Essas últimas notícias nos levam a fazer um alerta para a população sobre a necessidade de atenção às vacinas obrigatórias e que estão previstas no Calendário Nacional de Vacinação.

 
Segundo dados do Ministério da Saúde, entre as dez vacinas que precisam ser tomadas por crianças de até um ano no Brasil, nove estão com cobertura abaixo dameta nacional. A única exceção é a BCG, contra tuberculose, em geral aplicada ainda na maternidade. O restante dos imunizantes tem uma queda drástica de cobertura desde 2015.
 
Entre os motivos que justificam a diminuição da cobertura vacinal no país, estão os boatos acerca de falsos efeitos colaterais de vacinas ou preocupações exageradas em relação aos efeitos colaterais potenciais, desconsiderando os enormes benefícios tanto no nível individual como coletivo.
 
Entendemos que as vacinas estão sendo vítimas do seu próprio sucesso, isto é, a redução da frequência de algumas doenças ou mesmo sua eliminação fez com que a percepção de risco e a preocupação entre os pais tenham diminuído muito. Isso porque não há notícias de mais casos de paralisia infantil, por exemplo, há mais de 20 anos e as mortes por sarampo ou por meningite por hemófilo despencaram vertiginosamente.
 
Esta percepção de baixo risco, aliada a mentalidade de que "não preciso expor meus filhos aos riscos de efeitos colaterais, já que muitas outras crianças estão sendo vacinadas e ele estará protegido porque os vírus/bactérias não vão circular em uma população com alto índice de vacinados" também é uma das causas da recusa, principalmente entre a população de mais alta renda/nível cultural. O problema é que muitas pessoas parecem estar pensando do mesmo jeito e, ao longo dos últimos anos, a cobertura vacinal vem caindo perigosamente, ameaçando esse efeito protetor, chamado imunidade de rebanho.
 
Este não é um fenômeno exclusivo do Brasil, ele tem sido visto também em muitos países europeus e na América do Norte, onde os resultados de um estudo demonstraram uma correlação entre vacina tríplice viral (SCR) e autismo. Mesmo anos após a descoberta que os resultados foram fraudados e o pesquisador banido do mundo cientifico, este e outros mitos, como a associação da vacina e os casos de microcefalia decorrentes da infecção congênita pelo Zika vírus, continuam tendo impacto sobre a adesão às vacinas.
 
Recentemente, tivemos o exemplo da vacinação contra a Febre Amarela, onde após um período em que houve uma corrida aos postos de saúde em busca da vacina, posteriormente não se atingiu a cobertura desejada, mesmo com vacina disponível, devido ao temor provocado pelos boatos que associaram a vacina ao risco de efeitos colaterais graves, como a doença viscerotrópica.
 
O que não conseguimos explicar ou convencer a população é que sem a vacinação muito mais gente morreria da doença. Além do fator comportamental, existem questões de ordem prática, que podem afetar a adesão à vacinação, como restrição de horários de funcionamento em postos de vacinação, desabastecimento temporário de algumas vacinas e a necessidade de ir diversas vezes ao posto, principalmente até os 15 meses de vida.
 
Além dos mitos e boatos descritos anteriormente, existem outros erros conceituais ou preconceitos que levam à redução da vacinação, tais como: é melhor que as crianças tenham doenças como catapora, caxumba e sarampo, uma vez que essas são doenças normais da infância - este é um erro frequente, uma vez que essas doenças podem ter complicações graves e levar ao óbito.
 
Outro erro frequente é acreditar que algumas vacinas podem causar a doença, como acontece em relação à vacina da gripe. Existem também falsas contra-indicações, como gravidez e imunodepressão, uma vez que muitas vacinas, como a para gripe e tríplice bacteriana (difteria/tétano/coqueluche), são muito importantes durante a gravidez e para pessoas imunodeprimidas. Apenas as vacinas de vírus vivos atenuados não devem ser administradas às gestantes e pessoas com imunodeficiência. Também é comum a falsa crença que as vacinas não podem ser aplicadas ao mesmo tempo, pois isso sobrecarregaria o sistema imunológico e traria menor eficácia ou mais efeitos colaterais.
 
São anos de investimento em pesquisa e desenvolvimento científico e tecnológico para se comprovar que vacinas são seguras e consideradas essenciais ao bem da saúde pública. Além disso, seu uso possui maior custo-benefício no controle de doenças imunopreveníveis que o de medicamentos para sua cura. Logo, não podemos permitir que nenhum desses motivos seja capaz de colocar em risco as chances dos indivíduos viverem em um mundo mais saudável e livre de surtos e epidemias.
 
Francisco Ivanildo de Oliveira Junior  - Médico infectologista e membro da diretoria da Sociedade Paulista de Infectologia 





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